23 de abril de 2017

ROSA VERMELHA



Trago uma rosa vermelha
Aberta dentro do peito
Já não sei se é comigo
Se é contigo que eu me deito.


A minha rosa vermelha
Mais parece uma romã
Pois quando aberta de noite
Não se fecha de manhã


Trago uma rosa vermelha
Na minha boca encarnada
Quem me dera ser abelha
Na tua boca fechada


Trago uma rosa vermelha
Não preciso de mais nada.


Pus uma rosa vermelha
Na fogueira do teu rosto
Mereço ser condenada
Por crime de fogo posto.


Trago uma rosa vermelha
Que é minha condenação
Condenada a vida inteira
À fogueira da paixão


Trago uma rosa vermelha
Atrevida e perfumada
É uma rosa vaidosa
A minha rosa encarnada


Trago uma rosa vermelha
Não preciso de mais nada.


(José Carlos Ary dos Santos)

10 de abril de 2017

SIMPLICIDADE



Queria, queria 
Ter a singeleza 
Das vidas sem alma 
E a lúcida calma 
Da matéria presa. 

Queria, queria 
Ser igual ao peixe 
Que livre nas águas 
Se mexe; 

Ser igual em som, 
Ser igual em graça 
Ao pássaro leve, 
Que esvoaça... 

Tudo isso eu queria! 
(Ser fraco é ser forte). 
Queria viver 
E depois morrer 
Sem nunca aprender 
A gostar da morte. 



(Pedro Homem de Melo) 

21 de março de 2017

VERSOS


Versos! Versos! Sei lá o que são versos... 
Pedaços de sorriso, branca espuma, 
Gargalhadas de luz, cantos dispersos, 
Ou pétalas que caem uma a uma... 

Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar, 
Um verso é o teu sorriso e os de Dante 
Eram o teu amor a soluçar 
Aos pés da sua estremecida amante! 

Meus versos!... Sei eu lá também que são... 
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração 
Partido em mil pedaços são talvez... 

Versos! Versos! Sei lá o que são versos... 
Meus soluços de dor que andam dispersos 
Por este grande amor em que não crês... 

(Florbela Espanca)

12 de março de 2017

Quase um Poema de Amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema 
De amor. 
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! 
A nossa natureza 
Lusitana 
Tem essa humana 
Graça 
Feiticeira 
De tornar de cristal 
A mais sentimental 
E baça 
Bebedeira. 

Mas ou seja que vou envelhecendo 
E ninguém me deseje apaixonado, 
Ou que a antiga paixão 
Me mantenha calado 
O coração 
Num íntimo pudor, 
— Há muito tempo já que não escrevo um poema 
De amor. 

(Miguel Torga)

23 de fevereiro de 2017

Dedicatória aos Amigos


Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim… do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe… nas cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices… Até que os dias vão passar, meses…anos… até este contacto se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo…. Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão: “Quem são aquelas pessoas?” Diremos…que eram nossos amigos e…… isso vai doer tanto! ”
Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!” A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente…… Quando o nosso grupo estiver incompleto… reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.
E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo….. Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades…. Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”

(Fernando Pessoa)

29 de janeiro de 2017

PRAIA





Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiqüíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.



(Sophia de Mello Breyner)