Ventos do Norte

14 de maio de 2017

ATÉ AMANHÃ




Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel, 
como nasce a água ou o amor 
quando a juventude não é uma lágrima. 

É primeiro só um rumor de espuma 
à roda do corpo que desperta, 
sílaba espessa, beijo acumulado, 
amanhecer de pássaros no sangue. 

É subitamente um grito, 
um grito apertado nos dentes, 
galope de cavalos num horizonte 
onde o mar é diurno e sem palavras. 

Falei de tudo quanto amei. 
De coisas que te dou 
para que tu as ames comigo: 
a juventude, o vento e as areias. 

(Eugénio de Andrade)

7 de maio de 2017

OCASO



“Ocaso”

Quando o ocaso se faz presente
Uma a uma as quimeras vão desaparecendo
Quais pássaros retornando ao ninho...
Para volver no pleno alvorecer...
Quando irão renascer as ilusões.

Dia após dia, se repetindo
Sem nunca realizar o tão almejado sonho...
O único certo é o incerto já conhecido.


(Anna Carlini)

23 de abril de 2017

ROSA VERMELHA



Trago uma rosa vermelha
Aberta dentro do peito
Já não sei se é comigo
Se é contigo que eu me deito.


A minha rosa vermelha
Mais parece uma romã
Pois quando aberta de noite
Não se fecha de manhã


Trago uma rosa vermelha
Na minha boca encarnada
Quem me dera ser abelha
Na tua boca fechada


Trago uma rosa vermelha
Não preciso de mais nada.


Pus uma rosa vermelha
Na fogueira do teu rosto
Mereço ser condenada
Por crime de fogo posto.


Trago uma rosa vermelha
Que é minha condenação
Condenada a vida inteira
À fogueira da paixão


Trago uma rosa vermelha
Atrevida e perfumada
É uma rosa vaidosa
A minha rosa encarnada


Trago uma rosa vermelha
Não preciso de mais nada.


(José Carlos Ary dos Santos)

10 de abril de 2017

SIMPLICIDADE



Queria, queria 
Ter a singeleza 
Das vidas sem alma 
E a lúcida calma 
Da matéria presa. 

Queria, queria 
Ser igual ao peixe 
Que livre nas águas 
Se mexe; 

Ser igual em som, 
Ser igual em graça 
Ao pássaro leve, 
Que esvoaça... 

Tudo isso eu queria! 
(Ser fraco é ser forte). 
Queria viver 
E depois morrer 
Sem nunca aprender 
A gostar da morte. 



(Pedro Homem de Melo) 

21 de março de 2017

VERSOS


Versos! Versos! Sei lá o que são versos... 
Pedaços de sorriso, branca espuma, 
Gargalhadas de luz, cantos dispersos, 
Ou pétalas que caem uma a uma... 

Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar, 
Um verso é o teu sorriso e os de Dante 
Eram o teu amor a soluçar 
Aos pés da sua estremecida amante! 

Meus versos!... Sei eu lá também que são... 
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração 
Partido em mil pedaços são talvez... 

Versos! Versos! Sei lá o que são versos... 
Meus soluços de dor que andam dispersos 
Por este grande amor em que não crês... 

(Florbela Espanca)

12 de março de 2017

Quase um Poema de Amor



Há muito tempo já que não escrevo um poema 
De amor. 
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! 
A nossa natureza 
Lusitana 
Tem essa humana 
Graça 
Feiticeira 
De tornar de cristal 
A mais sentimental 
E baça 
Bebedeira. 

Mas ou seja que vou envelhecendo 
E ninguém me deseje apaixonado, 
Ou que a antiga paixão 
Me mantenha calado 
O coração 
Num íntimo pudor, 
— Há muito tempo já que não escrevo um poema 
De amor. 

(Miguel Torga)