28 de novembro de 2011

Litania


O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror,

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

2 comentários:

  1. Felicidades para esta nova "cria" ! :))... E muito especialmente para a criadora !
    Nada como iniciá-lo com este belo poema dum "vizinho" ;)

    Bj
    .

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  2. Obrigada Rui. És um amigão.

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