22 de dezembro de 2011

"O que me dói não é..."



O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


Fernando Pessoa

20 de dezembro de 2011

Ó Pátria mil vezes Santa


Ó Pátria mil vezes Santa,
Meu Portugal, minha terra,
Onde vivo e onde nasci!
Na tua História me perco,
E nela tudo aprendi.
Mesmo que fosses pequena
E eu te visse pobre e nua,
Ninguém ama a sua Pátria por ser grande,
Mas sim por ser sua!

António Botto (Portugal)

17 de dezembro de 2011

"Ética"


Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.


Luís Quintais

15 de dezembro de 2011

Quando as crianças brincam


Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa

13 de dezembro de 2011

"O Segredo é Amar"



O segredo é amar. Amar a Vida
com tudo o que há de bom e mau
em nós.
Amar a hora breve e apetecida,
ouvir todos os sons em cada voz
e ver todos os céus em cada olhar.
Amar por mil razões e sem razão.
Amar, só por amar,
com os nervos, o sangue, o coração.
Viver em cada instante a eternidade
e ver, na própria sombra, claridade.
O segredo é amar, mas amar
com prazer,
sem limites, fronteiras, horizonte.
Beber em cada fonte
florir em cada flor,
nascer em cada ninho,
sorver a terra inteira como um vinho.
Amar o ramo em flor que
há-de nascer
de cada obscura, tímida raiz.
Amar em cada pedra, em cada ser,
S. Francisco de Assis.
Amar o tronco, a folha verde,
amar cada alegria, cada mágoa,
pois um beijo de amor jamais se perde
e cedo refloresce em pão, em água!


Fernanda de Castro

12 de dezembro de 2011

"Voar"



Deve ser bom voar! Abrir as asas,
fechar os olhos e partir sem rumo,
pairar sobre as cidades, sobre as casas,
como pássaro, estrelas, nuvem, fumo...

Deve ser bom voar! Erguer os braços
e acima dos telhados e dos ninhos,
esquecer os sinais de inúteis passos,
fugir ao pó de todos os caminhos...

Mas onde as asas para assim voar,
para subir às nuvens e às estrelas?
As dos homens, são asas de matar...
...e as dos anjos, quem pode pretendê-las ?



(Fernanda de Castro)

Esperança


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana

11 de dezembro de 2011

Folhas mortas







Oh, eu queria tanto que você se lembrasse,
Dos dias felizes quando nós éramos amigos,
Nesse tempo, a vida era mais bela,
E o sol queimava mais que hoje.
As folhas mortas são colhidas com uma pá.
Você vê, eu não me esqueci.
As folhas mortas são colhidas com uma pá,
As lembranças e os arrependimentos também,
E o vento do norte as leva,
Na noite fria do esquecimento.
Você vê, eu não me esqueci,
Da canção que você cantava...
É uma canção que parece com a gente,
Você que me amava, eu que te amava.
Nós vivíamos, os dois, juntos,
Você que me amava, eu que te amava.
E a vida separa aqueles que se amam,
Levemente, sem fazer barulho.
E o mar apaga, sobre a areia,
Os passos dos amantes separados.

Nós vivíamos, os dois, juntos,
Você que me amava, eu que te amava.
E a vida separa aqueles que se amam,
Levemente, sem fazer barulho.
E o mar apaga, sobre a areia,
Os passos dos amantes separados..."


Jacques Prévert

8 de dezembro de 2011

Felicidade



Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada”
e eu respondi: “Bom dia, folha morta”

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse:“Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz”

E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!


Guilherme de Almeida

3 de dezembro de 2011

Outono


Alheia à continuidade das manhãs
fixo um encontro comigo
para a hora em que a terra se deixa amar sem cólera.
Tudo converge no sombreado das árvores
chorando as folhas.
Sento-me na esplanada dos prodígios
e abro um bloco pautado
para fixar a voz daqueles que ninguém ouve.
Ao mesmo tempo, apanho do chão
as memórias desta cidade
onde todos os sinais de vida
se conjugam com o verbo esperar
e todos os odores são uma mistura de fumo,
de fadiga, de suor e de solidão.
Tudo se passa, simultaneamente,
como uma despedida e um reencontro.

Graça Pires