30 de janeiro de 2013

VIVER É...



Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer,
 um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo,
 um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.

Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado
 ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus,
 que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de
tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração
 de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros.

 Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar
ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade.
A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar
a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda,
 muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem
 sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos
nem sentiremos mais tarde.

Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças.
 E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre.
 A vida é uma sala de aula onde todos somos professores,
onde todos somos alunos.

Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós
para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre
 uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo
 maravilhosos mas não se contenta com a contemplação.
 Ela exige reflexão. E exige soluções.

A vida é exigente porque é generosa.
É dura porque é terna.
É amarga porque é doce.
É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós
encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo.
A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum'

29 de janeiro de 2013

É uma rosa amarela.




É uma rosa amarela.
Uma rosa de verão.
Sempre uma rosa em botão
estava posta à janela.
Quem mora naquela casa
certamente que sabia
quanto essa rosa em botão,
seja branca ou amarela,
perfuma todo o verão.

(Eugénio de Andrade)

23 de janeiro de 2013

Fumo



Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

(Florbela Espanca)

20 de janeiro de 2013

O Dia Deu em Chuvoso





O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

(Álvaro de Campos)

18 de janeiro de 2013

Libertação






Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.

Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.

Nem as esperanças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.

(David Mourão Ferreira)

17 de janeiro de 2013

A boca




A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

(Eugenio de Andrade)

16 de janeiro de 2013

FOI PARA TI QUE CRIEI AS ROSAS




Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei  às romãs a cor do lume.

(Eugénio de Andrade)

15 de janeiro de 2013

Ode ao Gato



Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

(José Jorge Letria)

13 de janeiro de 2013

ESPERA



Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

(Eugénio de Andrade)

12 de janeiro de 2013

Caravela





Cheguei ao meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

(Florbela Espanca)

11 de janeiro de 2013

Amizade




Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram.

António Lobo Antunes

5 de janeiro de 2013

À Sua Passagem a Noite é Vermelha




À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

(Sophia de Mello Breyner)

3 de janeiro de 2013

Capitão da Areia





À noite,
Há fadas pelo céu,
Gigantes como eu,
Cuidado!
Há sombras na janela,
Peter Pan dança na estrela,
Não acordes na viagem.

Conta-me uma história
De tesouros e Luar,
És Capitão da Areia,
E Pirata de alto mar.

Agora,
As cortinas têm rostos,
São fantasmas bem dispostos,
Cuidado!
O Super-Homem está a caminho,
Traz o panda e o soldadinho,
Fecha os olhos e verás.

Conta-me uma história
De tesouros e Luar,
És Capitão da Areia,
E Pirata de alto mar.

Às vezes
Há dragões que têm medo,
E é esse o seu segredo,
Cuidado!
Vivem debaixo da cama,
Brincam com o Homem-Aranha,
Vais levá-los no teu sono.

Conta-me uma história
De tesouros e Luar,
És Capitão da Areia,
E Pirata de alto mar.
Conta-me uma história
Onde eu entre devagar,
És Capitão da Areia
Diz-me onde me vais levar.

(Pedro Abrunhosa)




1 de janeiro de 2013

Em todos os jardins



Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

(Sophia de Mello Breyner)