14 de julho de 2013

Dor de alma



Meu pratinho de arroz doce
polvilhado de canela!
Era bom mas acabou-se
desde que a vida me trouxe
outros cuidados com ela.
.
Eu, infante, não sabia
as mágoas que a vida tem.
Ingenuamente sorria,
me aninhava e adormecia
no colo da minha mãe.
.
Soube depois que há no mundo
umas tantas criaturas
que vivem num charco imundo
arrancando o arroz do fundo
de pestilentas planuras.
.
Um sol de arestas pastosas
cobre-os de cinza e azebre
à flor das águas lodosas,
eclodindo em capciosas
intermitências de febre.
.
Já não tenho o meu engodo,
ó mãe, nem desejo tê-lo.
Prefiro o charco e o lodo.
Quero o sofrimento todo.
Quero senti-lo, e vencê-lo.

(António Gedeão)


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