2 de agosto de 2013

"Pressinto a hora dos naufrágios"


Sobre a linha do horizonte sulco
a tristeza que se apodera da noite
pela extrema possibilidade da mudez.
Pressinto a hora dos naufrágios
em meus lábios onde rangem
os cascos dos barcos sem rota.
Tenho nos joelhos a turbulência das marés.
E fico com os dedos arroxeados
como se remasse dias a fio
até amainarem os ventos.
Quando a cegueira me exigir,
posso olhar a minha sombra sem medo do luto.


(Graça Pires)

1 de agosto de 2013

Vieste Tarde



Vieste tarde, meu amor! Começa
Em mim caindo a neve devagar,
Morre o sol, o Outono cai depressa,
E o Inverno, finalmente, há-de chegar.

E se hoje andamos juntos, na promessa
De caminharmos toda a vida a par,
Daqui a pouco o teu amor tem pressa
E o meu, daqui a pouco, há-de cansar.

Dentro em breve, por trás das velhas portas,
Dando um ao outro só palavras mortas,
Que rolam mudas pelas nossas vidas,

Ouviremos, nas noites desoladas,
- Tu a canção das vozes desejadas,
Eu, o chorar das vozes esquecidas!


(Joaquim Nunes Claro)