31 de outubro de 2014


Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo

(Flora Figueiredo)

22 de outubro de 2014

Canção na plenitude


Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)


O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

(Lya Luft)

19 de outubro de 2014

Agora Mesmo


Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen

(Manuel Alegre)





18 de outubro de 2014

Talvez



Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste:
talvez.
Esta é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio…


(Albano Martins)

16 de outubro de 2014

A meu favor tenho o teu olhar



A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

(Manuel António Pina)

14 de outubro de 2014

Os amantes sem dinheiro



Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.


Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro.
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.


Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto
que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


(Eugénio de Andrade)

13 de outubro de 2014

O amigo



Não voltará - o que dele me ficou 
é como no inverno entre cortinas 
de chuva um tímido fio de sol: 
ilumina mas não aquece as mãos. 


(Eugénio de Andrade)

11 de outubro de 2014

FOZ DOS NAMORADOS





Aqui
Neste silencio desta praia sem marés
Junto da Pérgola com o mar aos nossos pés
Sobre esta areia admirando esse momento
Duma gaivota que se atira contra o vento


Vamos falar do nosso amor que tem matizes
Como estas ruas onde fomos tão felizes
Vamos lembrar as noites quentes desse Agosto
Na Foz velhinha perfumada de sol posto

Aqui na Foz, vamos falar de amor
Vamos fazer amor
Aqui na praia onde respira a solidão
Aqui na Foz vamos falar de amor
Neste mar alto de loucura e de paixão

Aqui
Neste recanto que o mar veste d’espuma
Junto ao Castelo emoldurado pela bruma
Sobre esta cama de sossego e fantasia
Que cheira a algas, céu azul e maresia

Vamos falar de mar e rio que se enlaçam
E dos amantes que se beijam e abraçam
Vamos falar do nosso amor em maré cheia
Enquanto a brisa nos envolve e despenteia

(Fernando Campos de Castro)

8 de outubro de 2014

CHUVA




A chuva entorna na paisagem calma
uma indolência de abandono e sono.
Paisagem triste como a de minha alma...
A chuva é um longo sono de abandono...



Olho através do espelho da vidraça:
dorme o jardim sob os soluços d'água...
Na rua, alguém cantarolando passa,
cantarolando a minha própria mágoa.



Quem será esse vulto que se apossa
da fina dor que em minha vida existe,
para cantá-la assim, num ar de troca,
de uma maneira que me põe mais triste?



E olho através do espelho da vidraça:
dorme o jardim sob os soluços d'água.
Na rua adormecida, ninguém passa...
A chuva canta a minha própria mágoa.

(Onestaldo de Pennafort)