30 de novembro de 2014

SE TU VIESSES VER-ME..



Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...


Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri


E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti... 




(Florbela Espanca)

27 de novembro de 2014

Cai a Chuva no Portal




Cai a chuva no portal, está caindo 
Entre nós e o mundo, essa cortina 
Não a corras, não a rasgues, está caindo 
Fina chuva no portal da nossa vida. 
Gotas caem separando-nos do mundo 
Para vivermos em paz a nossa vida. 


Cai a chuva no portal, está caindo 
Entre nós e o mundo, essa toalha 
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo 
Chuva fina no portal da nossa casa. 
Por um dia todos longe e nós dormindo 
Lado a lado, como páginas dum livro. 


(Lídia Jorge)

12 de novembro de 2014

AMA-ME



Ama-me como se fosse hoje o último dia
Como se a terra parasse de repente
e Deus se resolvesse acabar com o mundo
que a ninguém pertence

Como se o sol em revolta ardesse de ciúmes
e de nós achasse que brilhamos mais
e que somos mais quentes

Ama-me sem dogmas e sem lei nenhuma
como tu bem sabes
Que o amor que nós temos
não suporta leis
nem tolera entraves

Fernando Campos de Castro
(In Inquietudes e outras Atitudes)

9 de novembro de 2014

Respiro o teu corpo




Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

((Eugénio de Andrade))