30 de dezembro de 2014

HÁBITO ADQUIRIDO


Meus dias têm o hábito 
de caminhar pela alameda sem dar conta de mim.
Um hábito que as tardes me ensinaram generosamente.
Os bolsos cheios de nada e as mãos vazias de tudo...
De volta, o portão de casa entreabre os braços secos
e me convida para entrar... 

E vem aquela sensação de que esqueci
de me lembrar do que o dia indiferente não contou...
Retorno em busca da lembrança do sorriso de amizade,
do cântico de um pássaro, de um beijo que me deu a brisa...
E só então percebo que minhas mãos vadias
– não sabendo uma o que a outra anda fazendo –
já me haviam tocado o coração secretamente
com o encanto que as idas e vindas pela vida
acabavam de me dar... 

Entro afinal, e num cantinho da memória
um sorriso de criança acende a luz
da minha alma... 

Como se alguma flor esquecida
estivesse me estendendo a mão...
... a mão do aroma de rosas
que ainda me acompanha... 

(Afonso Estebanez)

29 de dezembro de 2014

Dezembro



Quem me acode 
à cabeça e ao coração
neste fim de ano,
entre alegria e dor?

Que sonho,
que mistério,
que oração?

Amor.

Carlos Drummond de Andrade

27 de dezembro de 2014

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus 
[braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

21 de dezembro de 2014

NATAL...





Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.


Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.


E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!


(Fernando Pessoa)

15 de dezembro de 2014

MÚSICA PARA UM HINO



É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.


É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!


É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.


Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser LIVRE, LIVRE, LIVRE.


(Manuel Alegre)

13 de dezembro de 2014

MORRER DE AMOR



Acende as tuas mãos que o corpo pede
E deixa que depois tudo aconteça
Nas fontes do meu peito mata a sede
Até que tudo em mim se desfaleça
Afaga os meus cabelos com ternura
Afunda nos meus braços teus desejos
Respira em cada poro esta loucura
No oceano imenso dos meus beijos

Segreda-me palavras que enlouquecem
Navega no meu corpo em ondas loucas
Toquemos nossos lábios que se acendem
No fogo de prazer das nossas bocas
Desliza as tuas mãos pelo meu rosto
Beijando as minhas lágrimas de dor 
E deixa sobre mim esse teu gosto
Até que tudo em nós morra de amor

(Fernando Campos de Castro)

10 de dezembro de 2014

"Em louvor ao fogo"



Um dia chega 
de uma extrema doçura: 
tudo arde. 
Arde a luz 
nos vidros da ternura. 
As aves, 
no branco 
labirinto da cal. 
As palavras ardem 
e a púrpura das naves. 
O vento, 
onde tenho casa 
à beira do outono. 
O limoeiro, as colinas. 
Tudo arde 
Na extrema e lenta 
doçura da tarde. 


(Eugénio de Andrade)

9 de dezembro de 2014

CANÇÃO DA TARDE NO CAMPO




Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

(Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.)

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

(Eu ando sozinha 
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.)

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo
minha alma é a sombra da tua.

(Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.)

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

(Eu ando sozinha,
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.)

Cecília Meireles