31 de janeiro de 2015

MAIS UM DIA QUE PASSOU



Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.


Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente na tua mão.


(Eugénio de Andrade)

30 de janeiro de 2015

ESPELHO



Olho diante do espelho e nada vejo,
Lutei, chorei e sobrevivi,
Para chegar a lugar algum.

Acreditei que poderia mover montanhas,
Superar o impossível e ser meu próprio herói.
Mas nesta vida que a tudo contamina,
Nem mesmo a mais pura das almas sobreviveria.

Aquela criança que salvaria o mundo, sucumbiu à realidade.
Gritando com a alma sem que ninguém ouvisse,
Talvez porque o mundo seja surdo, ou talvez eu.

Tantas vezes quis fugir sem saber para onde,
Mas acabei por me iludir acreditando que tudo poderia mudar.

Caído diante deste espelho sem reflexo,
Aguardo o descanso do qual tanto medo tenho.
Quem sabe por acreditar que tudo possa recomeçar,
E como criança, eu mais uma vez possa sonhar.

(Alberto Leal)

28 de janeiro de 2015

O AMOR TEM ASAS DE OURO



Creio nos anjos que andam pelo mundo, 
Creio na deusa com olhos de diamantes, 
Creio em amores lunares com piano ao fundo, 
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, 

Creio num engenho que falta mais fecundo 
De harmonizar as partes dissonantes, 
Creio que tudo é eterno num segundo, 
Creio num céu futuro que houve dantes, 

Creio nos deuses de um astral mais puro, 
Na flor humilde que se encosta ao muro, 
Creio na carne que enfeitiça o além, 

Creio no incrível, nas coisas assombrosas, 
Na ocupação do mundo pelas rosas, 
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén. 

(Natália Correia)

25 de janeiro de 2015

Passado, Presente, Futuro



Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: 
Mil camadas de pó disfarçam, véus, 
Estes quarenta rostos desiguais. 
Tão marcados de tempo e macaréus. 

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é: 
Rã fugida do charco, que saltou, 
E no salto que deu, quanto podia, 
O ar dum outro mundo a rebentou. 

Falta ver, se é que falta, o que serei: 
Um rosto recomposto antes do fim, 
Um canto de batráquio, mesmo rouco, 
Uma vida que corra assim-assim. 

(José Saramago)

23 de janeiro de 2015

AS COISAS


O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
e, acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
- Essas coisas que parece 
não terem beleza
nenhuma
- é simplesmente porque 
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!


(Mario Quintana)

20 de janeiro de 2015

Solidão





Ó solidão! À noite, quando, estranho, 
Vagueio sem destino, pelas ruas, 
O mar todo é de pedra... E continuas. 
Todo o vento é poeira... E continuas. 
A Lua, fria, pesa... E continuas. 
Uma hora passa e outra... E continuas. 
Nas minhas mãos vazias continuas, 
No meu sexo indomável continuas, 
Na minha branca insônia continuas, 
Paro como quem foge. E continuas. 
Chamo por toda a gente. E continuas. 
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas. 
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas. 
Eterna, continuas... Mas sei por fim que sou do teu tamanho!


(Pedro Homem de Mello)

17 de janeiro de 2015

Casa






A antiga casa que os ventos rodearam
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam

A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o Íman dum céu lunar e frio

Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio


(Sophia de Mello Breyner)

15 de janeiro de 2015

Tempo



Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

(Miguel Torga)

12 de janeiro de 2015

O MAIOR BEM




Este querer-te bem sem me quereres
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda gente.


Mesmo beijar-me a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vão dizeres!...


Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir,árduo e profundo


Do teu desamor,dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?


(Florbela Espanca)

9 de janeiro de 2015

Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

(Cecília Meireles)

7 de janeiro de 2015

NATUREZA HUMANA


Cheguei.Sinto de novo a natureza
Longe do pandemónio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada.Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar.

(Vinícius de Moraes)

5 de janeiro de 2015

Dizem que a paixão o conheceu


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


(Al Berto)

4 de janeiro de 2015

Realidade



Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...

(Florbela Espanca)

1 de janeiro de 2015

ANO NOVO





Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento

(Fernando Pessoa)