18 de fevereiro de 2015

Primeiro a tua mão sobre o meio seio



Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

(Rosa Lobato de Faria)

15 de fevereiro de 2015

Poesia



O amor também cansa.
Renova a tua vida, dia a dia.
Onde estiver esperança
põe teu sonho e tua fantasia.

Entrega-te a cada hora
e aceita sem reservas
tudo o que venha ao teu encontro.
Não sejas como as ervas.

Deixa em tudo o teu selo de postagem.
Bebe em todas as fontes, se puderes.
Só terás remorso
do que possas fazer e o não fizeres.

Não forces a tua inspiração.
Deixa a poesia vir naturalmente
e não obrigues a mentir o coração.

Procura ser espontâneo.
A verdadeira beleza
está no que o homem tem de semelhante
com a natureza.



(Albano Martins)

12 de fevereiro de 2015

Pintura



Onde se diz espiga 
leia-se narciso. 
Ou leia-se jacinto. 
Ou leia-se outra flor. 
Que pode ser a mesma. 

As flores 
são formas 
de que a pintura se serve 
para disfarçar 
a natureza. Por isso 
é que 
no perfil 
duma flor 
está também pintado 
o seu perfume. 


(Albano Martins)

9 de fevereiro de 2015

Pé-de-Vento


passou.
Sei que era ele
porque transformou
minha integridade
em pó de estrela.
E assoprou tanto,
que me fez perdê-la
completamente.
Se ele regressar num repente,
vou tentar detê-lo
para recuperar um fragmento
de claridade.
Pé-de-vento.
Há de voltar.
Levou meu brilho,
mas deixou saudade.

(Flora Figueiredo)

8 de fevereiro de 2015

HAVIA UMA PALAVRA


Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula.Ignorada.

Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.

Uma palavra.
No escuro
Que me chamava.


(EUGÉNIO DE ANDRADE)

6 de fevereiro de 2015

Da Tua Vida




Da tua vida o que não podem entender 
Nem oiro nem poder nem segurança 
Mas a paixão do Tempo e de seus riscos 
Tu buscaste o instante e a intensidade 
E foste do combate e da mudança 
Por isso um rastro de ruptura e de viagem 
Ou talvez este fogo inconquistado 
Como breve eternidade 
De passagem 


(Manuel Alegre)

5 de fevereiro de 2015

OS LIVROS


Apetece chamar-lhes irmãos,
tê-los ao colo,
afagá-los com as mãos,
abri-los de par em par,
ver o Pinóquio a rir
e o D. Quixote a sonhar,
e a Alice do outro lado
do espelho a inventar
um mundo de assombros
que dá gosto visitar.
Apetece chamar-lhes irmãos
e deixar brilhar os olhos
nas páginas das suas mãos


(José Jorge Letria)