30 de abril de 2015

Quinto Poema do Pescador


Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.


Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.


(Manuel Alegre)

27 de abril de 2015

CHOVE, DE MANSO, NA CIDADE





Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?


Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!


E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.


E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.


26 de abril de 2015

Pedido




Ama-me sempre, como à flor do lírio 
Bravo e sozinho, a quem a gente quer 
Mesmo já seco na recordação. 
Ama-me sempre, cheia da certeza 
De que, lírio que sou da natureza, 
Na minha altura eu brotarei do chão. 

(Miguel Torga)

19 de abril de 2015

Entre o luar e a folhagem



Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e doi.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz,
Só de segui-lo me perdi.

(Fernando Pessoa)

18 de abril de 2015

À HORA EM QUE OS CISNES CANTAM



Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono...
Benevolência. Inconsequência. Inexistência.


Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono...
Todo o perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono...
Esmola que faz bem... - nem gestos, nem violência...


Nem palavras.Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento
volver de olhos, em torno, augurais e espectrais...


Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Riso? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais...


(Cecília Meireles)

12 de abril de 2015

Estações




Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera


Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.





Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono



Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.


Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei 


(José Jorge Letria)