3 de maio de 2015

Mãe



Mãe: 

Que desgraça na vida aconteceu, 
Que ficaste insensível e gelada? 
Que todo o teu perfil se endureceu 
Numa linha severa e desenhada? 


Como as estátuas, que são gente nossa 
Cansada de palavras e ternura, 
Assim tu me pareces no teu leito. 
Presença cinzelada em pedra dura, 
Que não tem coração dentro do peito. 


Chamo aos gritos por ti — não me respondes. 
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio. 
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes 
Por detrás do terror deste vazio. 


Mãe: 
Abre os olhos ao menos, diz que sim! 
Diz que me vês ainda, que me queres. 
Que és a eterna mulher entre as mulheres. 
Que nem a morte te afastou de mim! 


(Miguel Torga)

5 comentários:

  1. Tão bonito, Ju. Torga escrevia maravilhosamente.

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  2. Muito bonita essa poesia do Miguel Torga !

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  3. Belo poema de Miguel Torga*

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  4. Passei por caso, nesta tarde cinzenta, para sentir os "Ventos do Norte". Gostei, pois as nortadas são uma constante à volta do Jardim d'Abrolhos.

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