29 de junho de 2015

PAIRA À TONA DE ÁGUA



Paira à tona de água 
Uma vibração, 
Há uma vaga mágoa 
No meu coração.

Não é porque a brisa 
Ou o que quer que seja 
Faça esta indecisa 
Vibração que adeja, 

Nem é porque eu sinta 
Uma dor qualquer. 
Minha alma é indistinta, 
Não sabe o que quer. 

É uma dor serena, 
Sofre porque vê. 
Tenho tanta pena! 
Soubesse eu de quê!...”

(Fernando Pessoa)

23 de junho de 2015

Discurso de Péricles aos Atenienses



Retirado DAQUI

Deixai-os em treino permanente
Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício


Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo

A nossa força é a diferença

Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
Porque a nossa coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta

Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida

(Manuel Alegre)



19 de junho de 2015

AS MULHERES SÃO MAIS FORTES


Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes,
mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens.
Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais
fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género
masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares
são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir
autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que
fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando 
metade da humanidade à subordinação e à humilhação?


(José Saramago)

5 de junho de 2015

TENHO TANTO SENTIMENTO



Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.


Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.


Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”


(Fernando Pessoa)

1 de junho de 2015

Em Louvor das Crianças

(foto minha)

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.



(Eugénio de Andrade)