27 de agosto de 2015

Olha-me Rindo Uma Criança



Olha-me rindo uma criança 
E na minha alma madrugou. 
Tenho razão, tenho esperança 
Tenho o que nunca bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso 
Que e nem sequer sorriso meu. 
Mas para meu não o preciso 
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar 
Sorriu ao certo para mim… 
És a memória de um lugar, 
Onde já fui feliz assim.

(Fernando Pessoa)

20 de agosto de 2015

Os rios


Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

(Olavo Bilac)