27 de outubro de 2015

O Jardim




Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, 
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. 
Sequências de convergências e divergências, 
ordem e dispersões, transparência de estruturas, 
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. 

Geometria que respira errante e ritmada, 
varandas verdes, direcções de primavera, 
ramos em que se regressa ao espaço azul, 
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem 
composta pelo vento em sinuosas palmas. 

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio. 
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena. 
Sou uma pequena folha na felicidade do ar. 
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis. 
É aqui, é aqui que se renova a luz. 

(António Ramos Rosa)

21 de outubro de 2015

Meu País Desgraçado


Meu país desgraçado!… 
E no entanto há Sol a cada canto 
e não há Mar tão lindo noutro lado. 
Nem há Céu mais alegre do que o nosso, 
nem pássaros, nem águas… 

Meu país desgraçado!… 
Porque fatal engano? 
Que malévolos crimes 
teus direitos de berço violaram? 

Meu Povo 
de cabeça pendida, mãos caídas, 
de olhos sem fé 
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde 
a causa da miséria se te esconde. 

E em nome dos direitos 
que te deram a terra, o Sol, o Mar, 
fere-a sem dó 
com o lume do teu antigo olhar. 

Alevanta-te, Povo! 
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres, 
a calada censura 
que te reclama filhos mais robustos! 

Povo anémico e triste, 
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres! 
— olha a censura muda das mulheres! 
Vai-te de novo ao Mar! 
Reganha tuas barcas, tuas forças 
e o direito de amar e fecundar 
as que só por Amor te não desprezam! 

(Sebastião da Gama)

15 de outubro de 2015

Madrigal



"A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

'Era uma vez uma flor,
Nasceu à beira de um Poeta...'

Vês como é simples e linda? 

(O resto conto depois,
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois)."

(Sebastião da Gama)