27 de dezembro de 2015

TUMULTO





Tempestade. O desgrenhamento
Das ramagens ... O choro vão
Da água triste, do longo vento,
Vem morrer-me no coração.

A água triste cai como um sonho,
Sonho velho que se esqueceu ...
(quando virás, ó meu tristonho
Poeta, ó doce troveiro meu! ...)

E minha alma, sem luz nem tenda,
Passa errante, na noite má,
À procura de quem me entenda
E de quem me consolará ...


(Cecília Meireles)

21 de dezembro de 2015

Ode aos Natais Esquecidos


Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta 
que dava acesso aos mistérios da noite, 
daquela noite em particular, por ser a mais terna 
de todas as noites que a minha memória 
era capaz de guardar, com letras e sons, 
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis. 
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos, 
a lembrança de outras noites e de outros dias, 
os brinquedos cansados da solidão dos quartos, 
os cadernos invadidos pêlos saberes inúteis. 
E todos me diziam que era ainda muito cedo, 
porque a meia-noite morava já dentro do sono, 
no território dos anjos e dos outros seres alados, 
hora inatingível a clamar pela nossa paciência, 
meninos hirtos de olhos fixos na claridade 
enganadora de uma árvore sem nome. 


Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também. 
Tudo se tornou gélido, esquivo e distante 
como a tristeza de um fantasma confrontado 
com a beleza da vida para sempre perdida. 
Deixaram de me dar presentes e de dizer 
que era o Menino Jesus que os trazia 
para premiar a minha grandeza de alma, 
o meu desejo de ser bom para os outros. 
Passei a escrever sobre tudo isso, sofregamente, 
só para não ter de escrever sobre a saudade 
que esse tempo fugidio deixou em mim. 


A árvore mirrou de frio num canto da sala, 
os presentes apodreceram no sótão da casa, 
juntamente com os doces da Consoada 
que ninguém teve vontade de comer, 
nem mesmo os mais gulosos como eu. 
Um homem de muita idade bateu-me à porta 
e depositou-me nas mãos um pequeno embrulho: 
«Eis o teu presente de Natal» — disse-me. 
Abri-o e vi um livro onde se contava 
toda a minha vida desde o primeiro Natal 
de que conseguia lembrar-me, tudo o mais esquecendo. 
Ali estava eu de pé, muito quieto, junto da árvore, 
à espera que alguém me viesse dizer 
que o céu era pródigo em revelações e dádivas. 
Era para lá que eu sonhava ir quando morresse.
 

Quando Dezembro se aproximar do fim, 
lançarei pétalas ao vento como se tentasse 
semear o perfume do que fui enquanto acreditei. 
Talvez o homem volte com outro embrulho secreto, 
só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever. 
Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos 
numa roda de luz à minha volta e direi do Natal 
o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses: 
foi à sombra deles que nos fizemos homens. 
Quando eu partir de vez, lembrem ao menos 
a ternura do meu sorriso de menino 
quando a meia-noite soava no relógio da sala 
e eu acreditava ainda que a felicidade era possível. 

(José Jorge Letria)

18 de dezembro de 2015

PRELÚDIO DE NATAL



Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas


(David Mourão-Ferreira)

1 de dezembro de 2015

ASSOMBROS



Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


(Affonso Romano de Sant'Anna)