24 de janeiro de 2016

NÓS




Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...


(Guilherme de Almeida)


20 de janeiro de 2016

Personagem


Teu nome é quase indiferente 
e nem teu rosto já me inquieta. 
A arte de amar é exactamente 
a de se ser poeta. 

Para pensar em ti, me basta 
o próprio amor que por ti sinto: 
és a ideia, serena e casta, 
nutrida do enigma do instinto. 

O lugar da tua presença 
é um deserto, entre variedades: 
mas nesse deserto é que pensa 
o olhar de todas as saudades. 

Meus sonhos viajam rumos tristes 
e, no seu profundo universo, 
tu, sem forma e sem nome, existes, 
silêncio, obscuro, disperso. 

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, 
teu coração, tua existência, 
tudo - o espaço evita e consome: 
e eu só conheço a tua ausência. 

Eu só conheço o que não vejo. 
E, nesse abismo do meu sonho, 
alheia a todo outro desejo, 
me decomponho e recomponho. 


(Cecília Meireles)

15 de janeiro de 2016

RETRATO DE MULHER TRISTE


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.




(Cecília Meireles)

7 de janeiro de 2016

MÁQUINA DE ESCREVER


Maria, nunca mais me escrevas a máquina. 
Isso dá a impressão de falta de sinceridade. Porque,
quanto a mim, não sei pensar a máquina. Só a lápis 
ou esferográfica.

Com a esferográfica, então, e ainda
mais quando em papel gessado, o pensamento vai 
deslizando como esqui sobre a neve, como um trenzinho 
– tuc, tuc, tuc – atravessando, preto sobre branco,
solidões geladas do norte do Canadá.

Com a máquina é o contrário: os dois fura-bolos com
que datilografo são uns magros galináceos bicando,
rápidos, vorazes, qualquer sementinha, qualquer 
grãozinho de idéia que apareça. Nada vinga, nada 
brota, e a página que ficou não é propriamente em
branco, porque se me afigura um chão de terreiro
deserto, poeirento e cheio de cocôs.

E depois, como pode ser íntima uma carta escrita a
máquina? Traz idéia de distância, de pequena mas
intransponível distância… 
como um beijo dado de máscara. 

(Mario Quintana)

3 de janeiro de 2016

A VERDADE


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso 
onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


(Carlos Drummond de Andrade)