7 de janeiro de 2016

MÁQUINA DE ESCREVER


Maria, nunca mais me escrevas a máquina. 
Isso dá a impressão de falta de sinceridade. Porque,
quanto a mim, não sei pensar a máquina. Só a lápis 
ou esferográfica.

Com a esferográfica, então, e ainda
mais quando em papel gessado, o pensamento vai 
deslizando como esqui sobre a neve, como um trenzinho 
– tuc, tuc, tuc – atravessando, preto sobre branco,
solidões geladas do norte do Canadá.

Com a máquina é o contrário: os dois fura-bolos com
que datilografo são uns magros galináceos bicando,
rápidos, vorazes, qualquer sementinha, qualquer 
grãozinho de idéia que apareça. Nada vinga, nada 
brota, e a página que ficou não é propriamente em
branco, porque se me afigura um chão de terreiro
deserto, poeirento e cheio de cocôs.

E depois, como pode ser íntima uma carta escrita a
máquina? Traz idéia de distância, de pequena mas
intransponível distância… 
como um beijo dado de máscara. 

(Mario Quintana)

2 comentários:

  1. Mario Quintana era um grande mestre da escrita... Será que se vivesse nos tempos que correm se teria modernizado? :)

    Beijocas

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