21 de abril de 2016

DA CONDIÇÃO HUMANA


Todos sofremos. 
O mesmo ferro oculto 
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta 
O mesmo sal nos queima os olhos vivos. 
Em todos dorme 
A humanidade que nos foi imposta. 
Onde nos encontramos, divergimos. 
É por sermos iguais que nos esquecemos 
Que foi do mesmo sangue, 
Que foi do mesmo ventre que surgimos.



(Ary dos Santos)

12 de abril de 2016

Vontade de mar...



Há nesta vibração um prenúncio
Uma espera que germina
Uma fala inesperada...

Um murmúrio, uma corrente.
Há um rio que se advinha.
Há um rosto. E em cada linha
Uma vontade de Mar
Desatada...

Uma palavra em cada esquina.
Uma promessa. Uma viola.
Uma canção que se afina.
Uma mão – clandestina!
E uma nova luta pegada.

Há um barco que se anuncia.
Há uma ousadia sonhada...

Há um poema sem rima. Uma viagem.
Uma flor. Uma arma. 
Uma fronteira vencida.
Há uma Festa que se acarinha
Ou uma dor aziaga...

Há este gesto insubmisso
E esta paixão tão gritada...

(Manuel Veiga)

7 de abril de 2016

INDIFERENÇA




Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança. 
Daqueles tempos que não voltam mais!

(Guilherme de Almeida)