23 de junho de 2016

Quem como eu




Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

(Sophia de Mello Breyner)

15 de junho de 2016

SE OS POETAS DESSEM AS MÃOS


Se os Poetas dessem as mãos 
e fechassem o Mundo 
no grande abraço da Poesia, 
cairiam as grades das prisões 
que nos tolhem os passos, 
os arames farpados 
que nos rasgam os sonhos, 
os muros de silêncio, 
as muralhas da cólera e do ódio, 
as barreiras do medo, 
e o Dia, como um pássaro liberto, 
desdobraria enfim as asas 
sobre a Noite dos homens. 

Se os Poetas dessem as mãos 
e fechassem o Mundo 
no grande abraço da Poesia. 

(Fernanda de Castro)

9 de junho de 2016

OS AMIGOS


Os amigos amei 
despido de ternura 
fatigada; 
uns iam, outros vinham, 
a nenhum perguntava 
porque partia, 
porque ficava; 
era pouco o que tinha, 
pouco o que dava, 
mas também só queria 
partilhar 
a sede de alegria — 


por mais amarga.

(Eugénio de Andrade)

6 de junho de 2016

SENHOR, LIBERTAI-NOS


Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência.
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres.


(Sophia de Mello  Breyner)