23 de outubro de 2017

As Palavras Interditas



Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

(Eugénio de Andrade)

2 comentários:


  1. Bolas... que li duas vezes e não entendi nadinha de nada!
    Este homem quando queria complicar... :)
    Talvez por ser assim, é que ele é tão indecifravelmente belo!

    Beijos minha musa da poesia
    (^^)

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    1. Bem disse o nosso amigo Ricardo num comentário algures neste blog: "A poesia já é difícil compreendê-la, quanto mais comentá-la".

      Beijinhos, minha querida.

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