9 de junho de 2018

A FIGUEIRA



Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de Agosto
apenas me roçava, e partia.


(Eugénio de Andrade)

7 comentários:

  1. Magnifica imagem e o poema!

    Bom domingo e um beijinho Ju

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Adélia!

      Beijinho doce, como um figo de mel!

      Eliminar
  2. «... naquele céu verde de Agosto...»
    É muito difícil entender poesia!
    O "verde" é alusivo a ele ser novo e por isso ainda não estava preparado para dar forma à poesia que lhe roçava o corpo?

    Eu adoro figos... mas nunca como! :(
    Sempre que compro algum (esconjurando o preço exorbitante que por eles pedem) ou não sabem a nada... ou, se tento esperar que amadureçam um pouco mais, acabo por deitá-los fora porque azedam e apodrecem de um dia para o outro!

    Há ali um na foto que já se deixava comer... :)
    Beijinhos doces
    (^^)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Só tu, minha querida Deusa, para ainda vires espreitar este cantinho meio abandonado!
      Neste verão tórrido de céu azul, o calor levou não só os figos, mas também a figueira!
      Muitos beijinhos, doces como pingos de mel!

      Eliminar

    2. Que pena Ju! :(
      Olha, eu sempre lá consegui na semana passada matar desejos de figos.
      Está até uma fotografia deles nos Jardins! :))

      Beijinhos minha querida
      Adoro-te!
      (^^)

      Eliminar
  3. Embora seja beirão, Eugénio de Andrade é um Poeta do Porto. Lembro-me da sua casa (que foi, mais tarde, Fundação), na Foz do Douro.
    È bonito sim, este poema; e cheira a fruta madura!
    (e a fotografia é bem conseguida)
    Abraço.
    jorge

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É lindo sim, este poema!
      "Cheira a fruta madura quando é verão", lembra-me algo referente a Lisboa! rsrsrs.
      A foto, claro, não é minha!
      Obrigada pela visita
      Abraço


      Eliminar